Entrevista Quentin Tarantino - Sobre Á Prova de Morte



Entrevista feita com Quentin Tarantino sobre o À Prova de Morte





ENTREVISTADOR: Quando percebeu que dois grupos de mulheres iriam ser o foco de À Prova de Morte?

QUENTIN TARANTINO: Esse foi o primeiro impulso para o fazer. Durante os últimos três ou quatro anos. Tive muitas amigas diferentes - tenho diferentes grupos de mulheres com que convivo. Também tenho amigos homens, mas a dinâmica de um bando de mulheres que andam juntas tem sido mais a minha realidade durante os últimos anos. Ouço todas as coisas de que falam e de que brincam, a sua camaradagem e a maioria das mulheres neste filme é baseado numa pessoa, ou numa combinação desta e daquela pessoa. Mas eu sabia que queria seguir estas mulheres.
É isso que eu faço - eu sou escritor. Absorvo estas coisas e tenho de fazer algo com elas. Depois comecei a pensar na ideia de fazer algo que, embora não seja um filme slasher - porque não tem uma estrutura de filme slasher - parece ter uma estrutura de filme slasher. Por isso, com isso em mente, fiquei como: "Oh, quer saber? Isso é o formato perfeito para ter um bando de mulheres juntas e tê-las todas juntas". Exceto que elas têm um diálogo um pouco melhor! [Risadas] Mas acabou de se apresentar, esta oportunidade de apresentar este grupo de mulheres. Estamos juntos com elas, e próximos delas. até que algo aconteça.

ENTREVISTADOR: Tinha planeado fazer uma história mais feminina antes de À Prova de Morte?

QUENTIN TARANTINO: Não. Eu queria fazer um filme com grupos de personagens femininas, mas ainda não tinha realmente encontrado uma base. Então, quando Robert Rodriguez me disse que estava fazendo Planeta Terror, um filme de zumbis, comecei a pensar. Estou sempre dando pequenos pulos nos gêneros - de repente dou um salto no Western Spaghetti e começo a vê-los e eu tinha acabado de sair de um pulo no Slasher, e comecei a revisitar todos de novo e me divertir muito. Assim, quando Robert criou o Planeta Terror, eu pensando: "Cara, eu posso fazer um filme slasher - isso seria ótimo".
Mas depois o que eu gosto tanto nos filmes slasher são as coisas que os fazem limitados. São todos iguais, e isso faz parte do seu encanto. É um perfeito gênero para subtexto. É por isso que se pode fazer tantas críticas subtextuais sobre eles, porque seguem o mesmo padrão. E fuder muito com os padrões é fuder com o gênero em geral. Eu estava: "OK, isso faria ser muito auto-reflexivo". Seria um exercício muito reflexivo para fazer isso. Foi o que eu pensei: "Como posso fazer à minha maneira e obtenho o que quero dele"? Além disso, saindo dos filmes de slasher, percebi que nunca tinha realmente feito um filme de exploitation antes. Apesar de termos passado muito tempo filmando, eu queria ter essa oportunidade, como se estivesse filmando em 1977, com um tempo de filmagem de 20 dias. Começou a me lembrar do tipo de filmes que eu poderia imaginar que teria feito nos anos 70, algo como The Candy Snatcher (1973), um filme de exploitation que tem todos estes elementos estranhos.

ENTREVISTADOR: Em retrospectiva, a maioria dos filmes de exploitation eram na realidade muito pessoais; foram feitos por diretores a quem foi basicamente dada uma lista de de coisas a incluir - a nudez, violência, perseguições de carros - fora isso,eram livres dos seus produtores...

QUENTIN TARANTINO: Sim. E À Prova de Morte segue uma estrutura de filmes slasher, mas há tantos elementos fucked-up. Mas é isso que torna este exploitation clássico em filmes tão fantásticos. Como The Candy Snatchers - algumas pessoas viram-no na semana em que foi lançado, e talvez apanhado em drive-ins ou nas nas sessões duplas de grindhouse*, mas não é como se esse filme fosse falado durante os anos 80, igual como a A Noite dos Mortos-Vivos foi. Portanto, as pessoas estão o encontrando novamente agora, literalmente anos e anos mais tarde. E há algo realmente lá.
É como No Limiar do Ódio (1974) - não se conhece este filme no início, apenas vai se desenrolando. E no caso de alguns dos que eu realmente gosto, ele continua se desdobrando de uma forma realmente maluca. Você fica: "Oh, meu Deus!" Agora, há algo um pouco brega sobre esses filmes também. Eu não vou por esse fator brega, em termos da realização do filme, mas uma das coisas que sempre adorei em filmes de exploitiation é que, mesmo no meio de tudo isto, de repente, você começar se preocupar com os personagens. Nos preocupamos com o que acontece com eles e somos pegos até mesmo neste filme idiota. E, de repente, já não é idiota porque ,na verdade, nos importamos pra caralho sobre o que acontece com estas pessoas, e eu adoro isso. Especialmente quando se está assistindo com audiências modernas.

ENTREVISTADOR: Sobre o elenco de À Prova de Morte, conseguiu todos os que queria?

QUENTIN TARANTINO: Eu fui parar na lua quando consegui Kurt Russell - ele era perfeito para mim. Mas com as atrizes, eu não o ofereci realmente a mais ninguém. Escrevi estas personagens que eu sentia realmente muito, e depois foi apenas um grande processo de audição - encontrar as pessoas certas para interpretar. Alguém perguntou a Jordan Ladd, eu acho: "Oh, fez o papel porque é filha de Cheryl Ladd e neta de Alan Ladd, e você estava em Cabana do Inferno?" E ela era como se estivesse: "Não! Eu ganhei esse papel! Eu era a melhor! E acredita em mim, se eu não estivesse, outra pessoa estaria aqui"!

ENTREVISTADOR: O papel de Stuntman Mike ia ser originalmente interpretado por Mickey Rourke.
Teve que reescrevê-lo para Kurt?

QUENTIN TARANTINO: Eu não o reescrevi de todo. Sou conhecido por ter feito isso. Quando não conseguimos Warren Beatty [em Kill Bill], eu escolhi David Carradine, e pouco a pouco eu o reescrevia. Tivemos um longo período de treino, por isso, ao conhecê-lo, eu continuava fazendo pequenos ajustes aqui e ali... Foi cerca de um ano mais tarde que deixamos tudo redondo e filmamos todas as coisas do Bill, e foi diferente. Mas eu ainda não tive essa experiência, cada vez que escrevo um roteiro com alguém em mente e eles não dão resultado. Pra mim isto não é ir para o próximo cara - sabe, o que é quase como cara - porque me dá uma oportunidade de repensar todo o meu filme. Kurt Russell é perfeito como Stuntman Mike, mas não há nada de diferente nisso. É um ator perfeito, é apenas diferente de Mickey Rourke.

ENTREVISTADOR: Porque é um ator perfeito?

QUENTIN TARANTINO: Há um aspecto maravilhoso que Kurt tem que é fantástico, e é o que espelha muito Stuntman Mike. Ele é um profissional que trabalha e tem estado neste negócio a muito tempo. Fez toda esta televisão episódica - fez todos aqueles episódios de serie televisiva, Chaparral e Harry O. E tem trabalhado com toda essa gente. Literalmente. Assim ele conhece a vida que o Stuntman Mike teve. Ele até tem a mesma idade geracional e conhece alguns dos pontos de partida. Cameron Mitchell teria feito um bom Stuntman Mike. Assim como William Smith, ou Ralph Meeker no seu tempo. Kurt conhecia todos aqueles cara, ele trabalhou com eles quando era uma criança pequena. Mas também o que é interessante é que ele é conhecido como Stuntman Mike, e há um cara em particular no qual ele se baseia. E não tem nada a ver com guarda-roupa ou tiques. Os Stuntmans também, todos eles conheceram caras como o Stuntman Mike: Ele nunca fez muito na verdade, mas apenas o suficiente para ter uma carreira. Para fazer Stuntman Mike real para mim, trabalhei toda a sua carreira. Na verdade, trabalhei mais sobre o seu background do que pude mostrar no filme.

ENTREVISTADOR: Como foi dirigir-se como Warren, o dono do bar nas cenas de Austin?

QUENTIN TARANTINO: Bem, uma das coisas que teve mais piada foi que, no roteiro, Warren é o tipo de proprietário-operador, e assim as pessoas iriam: "Hey Warren, me da uma bebida..." E eu servia uma bebida e lhe dava. Mas quando chegava hora de gravar, eu fiquei como: "Ei, tenho de ver estas cenas - não posso estar na volta, fazendo as bebidas". Já tínhamos esse cara, Tim, que na realidade é o verdadeiro barman no bar em que estávamos filmando, para ficar em segundo plano, mas de repente a parte do Tim começou a ficar cada vez maior... E o que é engraçado sobre isso é que começou a espelhar como é um verdadeiro proprietário-operador quando trabalha num turno. Sabe, ele começa a fazer um monte de bebidas, mas a certa altura, outra pessoa está fazendo todo o seu trabalho por ele enquanto está ocupado bebendo e namoriscando com as mulheres. Eu percebi que era um cara perfeito para Warren.

ENTREVISTADOR: Ficou assustado ao tentar uma perseguição de carro?

QUENTIN TARANTINO: Foi muito emocionante. O meu advogado estava no set e disse: "Você estava 100% certo". Ele estava se referindo a algo que eu disse muito sobre o Kill Bill - que os realizadores de ação realmente bons são os verdadeiros realizadores cinematográficos. Não estou dizendo que isso é o único tipo de cinema que pode existir, mas quando se trata de magia cinematográfica e cinematográficos. Sempre que me envolvo nisto, seja com lutas, que eu nunca fiz antes de Kill Bill, ou perseguições de carro, sou eu lidando comigo mesmo com isso. Isso sou eu fazendo as minhas coisas. Mas não estou fazendo para estar "OK". Não estou fazendo para ser "bastante bom". Eu queria fazer desta uma das melhores, se não a melhor, perseguição de carro de todas. Foi uma grande ansiedade. Mas chegamos ao fim e eu sabia que tinha a minha perseguição.

ENTREVISTADOR: A cena do acidente é muito explícito e também perversamente emocionante...

QUENTIN TARANTINO: toda a ideia é que você tem este impulso total a ir. O primeiro ponto é tornar-se realmente realista sobre o que acontece às pessoas num acidente - é como se fosse despedaçado. Portanto, o problema é estabelecer esta sequência onde os dois carros vão bater um no outro. Sabemos o que se vai passar. Depois de ficarmos no escuro durante o filme, agora estamos realmente à frente dos personagens. As mulheres estão alheias até ao segundo antes de acontecer, mas com a música que estou tocando... Estou tornando o público cúmplice neste acidente. Eles querem que o acidente aconteça. É emocionante, as mulheres estão conduzindo, e o público está à espera, e eles estão à espera para ele, e... é como uma ejaculação quando acontece. E o público tem de admitir que eles queriam que se chocassem. Se, no último segundo, as mulheres tivessem travado e desviado, eles ficaria furioso. Ficariam totalmente zangados.....
A questão é essa: conseguir que sejam cúmplices, que o queiram e que esperem por ele. Então - BANG! - acontece, é muito mais horrível do que poderia ter imaginado. Mas... é tarde demais! Queriam que isso acontecesse. Torcia que acontecesse. Você é cúmplice nisso. Agora tome o seu remédio! E deve sentir-se um pouco envergonhado, sentir-se um pouco mal, mas sentir-se como se tivesse vindo. Agora acenda os cigarros! Não demos nenhum murro.

ENTREVISTADOR: Usou CGI para isso?

QUENTIN TARANTINO: Não. Mais uma vez, essa é uma daquelas coisas que eu fiz nos últimos anos, em que eu escrevia literalmente merda e não fazia ideia de como íamos fazer. Mas nós descobrimos. No início, eu estava: "Não estou realmente afim de usar essa merda de CGI, mas isto pode ser útil, isso pode ser bom..." Porque não se pode fazer isto com pessoas, matá-las. Mas toda a gente sabe o quanto detesto essas coisas, por isso nós apenas tentamos descobrir como poderíamos fazer sem utilizar qualquer CGI. E conseguimos. Tentámos fazer algumas merdas realmente horríveis, e foi tudo no dia, com a câmara.

ENTREVISTADOR: Acha que perdemos algo do cinema agora que já não temos os tradicionais Filmes B e estúdios de atraso?

QUENTIN TARANTINO: Na verdade, penso que há uma grande perda. Compreendo porque é que as coisas mudam, e eu coloco a razão para eles mudarem precisamente no preço de um bilhete. É era diferente quando tudo custava $3, ou $3,50, ou no máximo $5. Podia-se pagar para ver uma copia barata de Tubarão e pagar o mesmo dinheiro para ver Nasce uma Estrela, sem preocupações. Mas agora estamos falando de $10, $12, não faz sentido. No entanto, havia algo perdido. Roger Corman sempre soube o que ia acontecer naquele mercado dois anos antes de acontecer. Então, quando de repente os seus filmes não estavam passando no cinema e iam diretamente para o vídeo - eu estava a trabalhar na loja de vídeo na altura - era como se fosse: "Ah cara, isto é o fim. Se está acontecendo agora, então é exatamente assim que vai ser".
Agora, houve alguns bons filmes feitos durante esse período de transição, uns poucos, mas quando não se teve a oportunidade de exposição no cinema, algo se perdeu. Não que estes filmes normalmente recebem boas críticas, mas sempre houve essa possibilidade. Havia a hipótese de Kevin Thomas do Los Angeles Times, que poderia escrever sobre, gostar e poderia obter uma boa critica. Havia a possibilidade de que Linda Gross, do New York Times, poderia gostar, ou talvez alguém do Village Voice, e então o seu trabalho poderia ser conhecido, e talvez pudesse continuar a partir daí. Mas quando vai diretamente para o vídeo, é como se essa oportunidade já não existisse. Acho que as ambições foram abaixo...


*Grindhouse aqui não se refere ao filme Grindhouse (2007), mas sim ao cinemas Grindhouse, que eram sessões de filmes B.

 

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